Ervas Naturais

Aproximando a Natureza

Fitoterapia

I. UM POUCO DE HISTÓRIA

A fitoterapia ontem e hoje

A fitoterapia é tão antiga quanto a história da humanidade, com documentação muito bem estudada. Todas as antigas civilizações têm suas próprias referências históricas às plantas me­dicinais. Nos documentos mais antigos, a fitoterapia está ligada à magia e é vista mui­tas vezes como “um presente dos deuses”, que permite aos seres humanos vencer os po­deres maléficos da terra. Até essas primeiras aplicações das plantas medicinais como agentes medicinais demonstram uma compreensão surpreendente dos diferentes efei­tos de cada espécie vegetal. No que diz respeito à documentação escrita do uso de plan­tas como remédios, a primeira referência é encontrada na obra chinesa Pen Ts’ao (“A Grande Fitoterapia”) de Shen Nung , que remonta a 2800 a.C.: aqui há uma lista de mais de 360 espécies, incluindo Ephedra sinica (Ma Huang), usada até hoje. Na medi­cina alopata, essa planta medicinal é a fonte da efedrina.

Antigos papiros mostram que no Egito, a partir de 2000 a.C. um grande número de médicos empregava as plantas como remédio. Consideravam a doença como resul­tado de causas naturais e não devido à atividade de espíritos maléficos. Parece que fo­ram os antigos egípcios que tentaram pela primeira vez eliminar o componente mági­co da prática da fitoterapia. O Papiro Ebers, que data de cerca de 1500 a.C., mencio­na fórmulas específicas para doenças conhecidas, e as espécies que aparecem na lista in­cluem algumas utilizadas por fitoterapeutas até hoje — como a flor do sabugueiro (Sam­bucus nigra), a losna (Artemisia absinthium) e a mirra (Commiphora molmol).

Nos mais antigos documentos gregos há muitas referências a Asclepiacliae e Rhiw­tomoki. O primeiro grupo foi batizado em honra ao deus grego da medicina, Asclépio ou Esculápio, e o segundo grupo descreve os “coletores de raízes”, fornecedores de plantas medicinais que provavelmente foram um dos primeiros grupos de pessoas a fa­zer listas precisas das propriedades medicinais das plantas que comercializavam. O ma­nual de fitoterapia conhecido mais antigo (que remonta ao século IV a.C.) é o Rhizo­tomika, compilado por Diocles, um dos discípulos de Aristóteles. Esse texto contém notas detalhadas sobre os efeitos fisiológicos das plantas medicinais.

Dioscórides (c. 40-80 d.C.), um personagem muito importante na história da fitoterapia, foi um médico que se propôs a compilar um guia fitoterápico bem abrangen­te, que mostrasse as características de todas as plantas medicinais comuns, assim como usá-las. Remontando ao século 1 d.C., De Materia Medica (Sobre as Formas de Curar) foi o primeiro manual de seu gênero. Muito detalhado, o texto descrevia cerca de 600 espécies; não só dava informações a respeito das dosagens sugeridas de várias plantas medicinais, como também considerava possíveis efeitos tóxicos. Havia uma seção so­bre a colheita e sobre o armazenamento das plantas, além de conselhos sobre a forma de detectar adulteração. Como se vê, o perigo da toxicidade era do maior interesse dos primeiros fitoterapeutas. Dioscórides viajou muito como cirurgião do exército e, como os exércitos romanos andavam por toda a Europa, seu conhecimento de plantas medi­cinais também os acompanhava. Como “jardins” de plantas medicinais eram cultiva­dos perto dos acampamentos, os romanos disseminaram efetivamente plantas desco­nhecidas, assim como a informação de suas propriedades medicinais. Duas plantas muito apreciadas eram a mostarda e o alho, usados em grande quantidade, não só na culinária, mas também na limpeza de partes infectadas do corpo (alho) ou aplicação de cataplasmas (mostarda).

A personalidade mais importante de toda a história da medicina foi Hipócrates (468-377 a.C.). Descrito muitas vezes como “o pai da medicina”, ele talvez tenha sido o verdadeiro instigador do tratamento holístico. Enfatizava a importância de manter históricos detalhados dos casos e acreditava firmemente no tratamento de seus pacien­tes como indivíduos. Concebeu um regime de tratamento à base de plantas medicinais, usando um total de mais de 400 espécies. Além dos remédios de plantas medicinais, em­pregava exercícios e dietas especiais, cada uma adaptando-se aos sintomas particulares do paciente, o que era conhecido como seu conceito de physis. Essa abordagem indivi­dual é a marca registrada da fitoterapia atual. Hipócrates via a doença como a perda da harmonia natural de um indivíduo saudável, e assim seu tratamento visava restaurar o equilíbrio do que ele descrevia como os quatro “humores” relatados na teoria humoral de Empédocles, um filósofo siciliano (500-430 a.C.). Ele afirmava que tudo era com­posto de quatro elementos: terra, fogo, ar e água, que tinham as características associa­das de secura, calor, frio e umidade. Daí derivou o conceito dos quatro humores (flui­dos): bile negra, sangue, bile amarela e fleuma. Cada um desses humores também esta­va ligado a um temperamento em particular, quais sejam, o melancólico, o sangüíneo, o colérico e o fleumático. O temperamento melancólico era descrito como “frio e seco e as doenças associadas a ele incluíam a depressão e a prisão de ventre, O tratamento consistia em administrar plantas medicinais “quentes”, como a Cassia senna (sene), pa­ra reduzir o excesso de bile negra e, desse modo, restaurar o equilíbrio, O temperamen­to fleumático era caracterizado por um excesso de “frio e umidade”, provocando doen­ças como a produção excessiva de catarro e as infecções do peito resultantes desse pro­cesso. As plantas medicinais quentes e secativas, como o Thymus vulgaris (tomilho), eram as mais indicadas, O temperamento sangüíneo resultava de um excesso de “quen­te e úmido” e caracterizava-se por uma tendência ao abuso de comida e bebida e dos

prazeres em geral. As doenças associadas a essa categoria incluíam a gota e a diarréia, e eram aliviadas por plantas medicinais de natureza refrescante e seca, como a Arctium Iappa (bardana). O temperamento resultante de um excesso de bile amarela, descrito co­mo colérico, era “quente e seco”. Caracterizava-se por comportamento raivoso e doen­ças do fígado. Plantas frias que promovem a umidade, como o Taraxacum officinale (dente-de-leão), eram administradas. Quando os quatro humores estavam bem equili­brados, o indivíduo gozava de boa saúde. Era isso que Empédocles chamava de estado de crasis; quando era perturbado, resultava uma discrasia.

Em contraste com os métodos de tratamento relativamente flexíveis e variáveis de Hipócrates estava o sistema rígido concebido por Galeno (12 1-180 a.C.). Fundamen­tava-se nos quatro humores de Hipócrates no sentido de envolver uma classificação formal de todas as plantas medicinais com base na forma como cada uma interagia com cada um dos humores. Desse modo, cada planta medicinal era destinada a um “temperamento” (ou temperatura) específico: quente, frio, úmido, seco ou temperado. Dentro dessas categorias, uma planta poderia estar no primeiro, segundo, terceiro ou quarto grau. Todos os médicos eram agora instruídos de acordo com a tradição de Ga­leno e a abordagem mais holística de Hipócrates não se desenvolveria mais nas épocas que se seguiram.

Há vários outros personagens do período de Galeno que contribuíram para o desen­volvimento da fitoterapia. Recomendamos ao leitor o excelente livro de Barbara Griggs, a Green Pharmacy, para mais detalhes. Na Europa, o conhecimento das plantas medici­nais foi mantido vivo ao longo de toda a baixa Idade Média ou Era das Trevas (dos sé­culos V a XI) por escribas, e um grande número de plantas medicinais — sobretudo gre­gas — foi compilado nas bibliotecas do império árabe em rápida expansão. Em Bagdá, uma equipe de tradutores do século IX iniciou a formidável tarefa de traduzir as obras de Galeno, Dioscórides, Hipócrates e diversos outros autores. Galeno era particular-mente popular entre os árabes, e a obra de Rhazes (865-925) adota suas idéias. Um de seus trabalhos inclui o comentário “Onde a cura pode ser obtida pela alimentação, não use drogas e evite remédios complexos quando os simples bastam”. Essa é, em grande parte, a abordagem terapêutica do médico fitoterapeuta de hoje. Avicena (930-1036), um farmacêutico e talentoso médico, seguiu de perto as doutrinas de Galeno e Hipó­crates e reafirmou a importância dos quatro humores em sua principal obra, A Canon on Medicine.

Em geral, o galenismo continua sendo a principal abordagem à medida que, a par­tir do século VIII, as idéias gregas foram traduzidas para o árabe. Três séculos depois, essas obras foram traduzidas para o latim e, do século IX ao século XII, essas traduções permitiram a introdução das contribuições árabes no pensamento ocidental. Com es­sas idéias vieram novas plantas medicinais exóticas, como a noz-moscada e a cânfora. Foi nesse período que a ciência farmacêutica se estabeleceu; fórmulas muito precisas para o preparo de remédios são encontradas em vários manuscritos árabes datados des­sa época. Durante a Era das Trevas, a farmácia misturou-se com a superstição. Vários “Leech Books” (Leech é uma palavra derivada do anglo-saxão laece, curar) do período ilustram esse fato, sendo o mais famoso deles o Leech Book of Bald [Livro de Medicina de Baled]. O autor foi contemporâneo de Alfredo, o Grande, e o livro é o remanescen­te anglo-saxão mais antigo sobre os remédios fitoterápicos. A abordagem.terapêutica de Bald é genuinamente holística; ele não só apresenta detalhes sobre os remédios co­mo também notas completas sobre a maneira de se relacionar com o paciente durante o tratamento. A dieta é levada em consideração e há uma lista dos alimentos apropria­dos para várias doenças. No entanto, entre as diversas receitas curativas estão as desti­nadas a proteger contra os elfos e duendes. Outro sistema extremamente organizado de fitoterapia foi desenvolvido pela escola Myddfai, do País de Gales, a partir do sécu­lo VI. Em uma verdadeira abordagem holística, está relacionado aos princípios hipo­cráticos: “Quem quer que coma ou beba mais ou menos do que deve, ou que durma mais ou menos, ou que trabalhe mais ou menos em função de doença ou dificuldades (sendo obrigado a esforçar-se demais), ou que, acostumado a sangrias, deixe de fazê­las, sem dúvida não escapará das doenças” (Abithel, 1891). Os médicos da escola Myddfai ofereceram um sistema bastante integrado de tratamento até o século XVIII, e a maioria de suas infusões era administrada como infusões simples (só uma espécie), preparadas com plantas medicinais frescas colhidas no local.

A partir do século X, os mosteiros passaram a ser os centros de formação e prática médica, embora os concílios da Igreja (1131-1212) tenham afinal impedido que os monges dispensassem tratamento médico. No entanto, as bibliotecas dos mosteiros tornaram-se repositórios de grandes coleções de livros de referência sobre a fitoterapia. Um grande número de obras foi produzido, inclusive De Viribus Herbarum, do bispo de Meung, onde as propriedades medicinais de mais de 80 plantas são descritas em ver­sos latinos. O Antidotarium, escrito por Nicolaus de Salerno, era uma obra extensa que resumia o trabalho sobre fitoterapia realizado pela Escola de Medicina de Salerno. Nos séculos XIII e XIV, Salerno foi o centro dos estudos de farmácia.

Muita atenção foi dada à qualidade dos remédios e, no século XIII, o catalão Arnau de Vilanova (c. 1235-1311) discutiu em detalhes essa questão. Ele escreveu:

No preparo de um remédio, o médico deve considerar, pela ordem, a limpeza, a moagem, a medida, a modificação da consistência e a mistura. Deve dar instruções a seus assistentes, os boticários, sobre a mistura, dizendo-lhes quando deve ser preparada, evitando que, pela falta de instruções, eles a preparem depois do que deveriam.

Também mostrou preocupação com a identificação precisa:

Quanto ao remédio em si, o médico deve refletir sobre o fato de conseguir reconhecê-lo ou n~o e, se puder, deve pedir para vê-lo e julga-lo por si. Mas, se não estiver &miliarizado com ele, também deve pensar se foi ou não descrito pelos sábios e, caso tenha sido, quando vir a planta, deve condujr se corresponde ou não à sua descrição e, se corresponder, escolhê-la; ao passo que, se não, não deve usá-la, escolhendo algo mais &miliar e condizente com a descri­ção dos sábios.

Os trechos citados constituíram a base de uma aula que Vilanova deu a alunos que estudavam as aplicações das plantas medicinais como remédios e passa a citar exemplos de identificações erradas. Ele considera a maneira exata pela qual as diferentes plantas deviam ser administradas, que países ofereciam os produtos vegetais de melhor qualida­de, como gengibre e figos. Também reconhecia o fato de que as plantas que cresceram em hábitats diferentes conterão quantidades diferentes do princípio ativo.

A Idade Média foi um período em que muitas espécies de plantas exóticas foram introduzidas, como a noz-moscada e o cravo. Foi essencialmente um período de fusão da medicina oriental com a ocidental. O século XV assistiu a publicação de De Pro­prietatibus Rerum, do inglês Bartholomew Anglicus (1495). É historicamente impor­tante, pois contém a primeira ilustração botânica impressa.

Muitos dos novos remédios que estavam sendo introduzidos baseavam-se sobretu­do na obra de Paracelso (1493-1541), uma personalidade controvertida, muito conhe­cida por desafiar a medicina da época. Em 1527, publicou um trabalho que questio­nava a doutrina dos humores e jurou tentar fazer uma reforma geral na prática médi­ca. Isso não atraiu a estima de seus colegas, que antes disso tinham-no convidado pa­ra ser o médico municipal de Basle. Com esse cargo, tinha o privilégio de lecionar na universidade, uma oportunidade de disseminar suas idéias. Com um interesse especial pela química, teve o mérito de ser o primeiro a se preocupar com a pesquisa detalha­da dos princípios ativos das plantas medicinais. Paracelso ainda defendia o uso de pro­dutos químicos (i.e., “drogas”) para tratar as doenças. Afirmava que esses agentes eram necessários porque a doença se originava de influências externas e, por isso, requeriam substâncias químicas fortes para combatê-las.

O interesse de Paracelso pela química estendeu-se à promoção do uso das plantas medicinais sob a forma de essências, tônicos e hidrolatos, que ele considerava formas de remédios muito eficazes. A partir do final do século XVI, houve uma onda de inte­resse pela formulação de receitas de misturas de plantas boas para a saúde, a maioria contendo entre 20 e 30 espécies. Devido a seu custo relativamente alto, seu uso res­tringia-se sobretudo aos próprios médicos ou às classes sociais mais elevadas. Os remé­dios destilados passaram a ser vendidos, e o entusiasmo por esse tipo de preparado só declinou no início do século XVIII — quando John Quincy (1719) ousou afirmar que várias formulações da London Pharmacopoeia de sua época “não serviam para nada” e “só eram usadas pelos ignorantes.

Não há dúvida de que Paracelso conseguiu introduzir um espírito de investigação na medicina, embora as superstições ainda fossem muitas. A doutrina das assinaturas (que ligavam a forma ou cor das estruturas da planta com suas propriedades medicinais), por exemplo, ainda era popular. Assim, uma planta de cor amarelo-vivo pode ter sido con­siderada útil para tratar a icterícia, e as que tinham folhas com forma semelhante a de­terminado órgão do corpo eram usadas para tratar esse órgão. Como as folhas sarapin­tadas da Pulmonaria officinalis (pulmonária) têm a aparência de um pulmão doente, es­sa espécie era usada para tratar problemas pulmonares. Felizmente para os pacientes, muitas dessas plantas medicinais têm efeitos benéficos e, em muitos casos, a aplicação escolhida era perfeita em termos dos componentes bioquímicos da planta.

A Idade Média também assistiu à fundação de várias universidades. Antes disso, o treinamento médico era semelhante ao do aprendiz de qualquer outro oficio; o discípu­lo devia desenvolver e ampliar as idéias de um mentor, O ensino universitário introdu­ziu uma abordagem mais abrangente, mais científica, abandonando muitas das teorias clássicas, O centro do ensino universitário parece ter sido a Itália; a Universidade de Pá­dua foi fundada em 1222. O fundador do Royal College of Physicians, Thomas Lina­cre (c. 1460-1524), estudou em Pádua, voltando à Inglaterra no início da década de 1490 para criar as faculdades de Oxford e Cambridge.

O século XVI foi um período excepcionalmente ativo, e em 1542 foi publicada De Historia Stirpium (A História das Plantas), de Leonhard Fuch. Ele desenhou todas as plantas com base na observação da natureza e, com isso, criou o estilo de todos os lii­turos textos de botânica. Antes disso, as ilustrações tendiam a ser copiadas de outros li­vros, e eram comuns a introdução e o exagero de certas imprecisões cada vez que eram copiadas. Há muitos exemplos documentados de identificação incorreta de plantas re­sultantes desses erros. A New Herball, de William Turner, datado de 1551, contém ad­vertências sobre as falsas identificações, que se estendiam até mesmo a espécies vendi­das nas farmacias.

Em geral, esse período viu um crescimento maciço do interesse pelos remédios àbase de plantas medicinais, intensificado pelas explorações realizadas no Novo Mun­do, que forneciam mais plantas novas. A partir de manuscritos astecas dessa época, co­mo o compêndio de plantas escrito por Martin de la Cruz (1552), fica evidente que uma excepcional flora estava à espera de investigações. No entanto, como muito pou­co foi escrito na Europa a respeito dessas plantas, elas continuaram relativamente des­conhecidas. Um exemplo de obra que documenta algumas dessas descobertas é a tra­dução do livro de Monardes intitulado Joyfull Newes out of the New Founde Worlde [-Boas Notícias do Mundo Recém-Descoberto] feita em 1577 por John Frampton.

O uso de remédios do Novo Mundo não encontrou o mesmo entusiasmo por par­te de todos, o que se reflete no título da obra de Timothie Bright, A Treatise Wherein is Declared the Sufficiencie of English Medicines [Um Tratado Em Que Se Declara a Su­ficiência dos Remédios Ingleses] (1580). Aqui se enfatiza que as espécies do Novo Mun­do são mais apropriadas para as doenças locais. Essa era uma crença comum na época, e reflete a tradição de que a medicina popular sempre se baseou em plantas medicinais frescas cultivadas localmente. Salvo essa questão, as novas espécies importadas eram muito caras e só e~apossível obtê-las secas.

O ensino da botânica medicinal passou a ser mais formalizado e, no século XVI, os jardins botânicos começaram a ser implantados em centros-chave de ensino, como Pá­dua (1545) e Leyden (1587). O livro de Culpepper (1653) que tem o título fantásti­co de The English Physician, orAn Astrologo -Physical Discourse of the Vulgar Herbs of this Nation being a Compleat Method of Physick whereby a Man may Preserve his Body in Health or Cure himself being Sick, for Three Pence Charge, with Such Things one-ly Grow in England, they being Most Fit for English Bodies [O Médico Inglês, ou Um Discurso Físico-AstroLógico das Plantas Medicinais Comuns desta Nação como um Método Completo de Medicina, através do qual um Homem pode Preservar a Saúde de seu Corpo ou Curar-se de uma Doença, pelo Preço de Três Centavos, com Plantas que só Crescem na Inglater­ra, sendo estas as Mais Apropriadas para o Corpo dos Ingleses], é outro livro célebre, O au­tor era detestado pelos outros médicos por ter ousado traduzir a London Pharmaco­poeia do latim para o inglês, permitindo assim que outros boticários a entendessem e, desse modo, tratassem os doentes que não tinham acesso a um tratamento médico ca­ro. Culpepper presta uma atenção particular às plantas inglesas, em vez de se estender sobre as variedades mais exóticas do exterior, como indica o longo título de seu texto! Infelizmente, ele também reintroduziu um elemento mágico na fitoterapia ao ligá-la àastrologia, justo quando ela estava adquirindo uma direção mais científica.

Embora não diretamente ligado à evolução da fitoterapia, o livro de Andreas Vesa­lius, De Humani Corponis Fabrica (A Esrutura do Corpo Humano), datado de 1543, não pode ser ignorado. Aumentou muito o conhecimento sobre a maneira pela qual o cor­po humano funciona, contribuindo, assim, para a evolução da medicina em geral. Co­mo a obra de Fuch, todas as ilustrações foram desenhadas com base na observação da natureza e, por isso, foi uma publicação muito importante sobre a anatomia humana.

William Harvey (1578-1657) também exerceu grande atividade neste período, sen­do um dos primeiros pesquisadores realmente científicos da anatomia e da fisiologia humanas. Deduziu a circulação do sangue, embora não a relação exata entre o sangue das artérias e o sangue das veias, apesar de reconhecer que devia existir um vínculo des­se tipo. Foi Malpighi (1628-1694) quem fez a descoberta após observar capilares no microscópio.

Durante a maior parte dos séculos XVII e XVIII, a fitoterapia parecia estar em de­cadência, pois as classes mais altas continuavam fazendo experiências com a c~medicina moderna”, que incluía substâncias empolgantes — mesmo que perigosas —, como o ar­s~nio e o mercúrio. A sangria também foi muito popular como uma “panacéia para to­dos os males”; até William Harvey, com sua abordagem analítica do estudo da anato­mia e da fisiologia, foi um defensor dessa forma popular de tratamento ao afirmar que ela “ocupava o primeiro lugar entre todos os remédios genéricos”. Assim como achou difícil abandonar essas formas de tratamento firmemente estabelecidas, também teve de lutar para se livrar das teorias pré-copérnicas da astronomia que já tinham sido su­peradas há muito tempo.

Com o passar do tempo, teria de haver o abandono de práticas pouco seguras co­mo a sangria e a administração de eméticos tóxicos. Na América do Norte, Samuel Thomson (1769-1843) partiu outra vez do zero em busca da causa das doenças e con­cluiu que resultavam de uma perturbação dos quatro elementos do interior do corpo — terra, ar, fogo e água. Lembra muito os quatro humores de Hipócrates. Thomson ti­nha uma visão extremamente limitada do que causava a doença: para ele, tratava-se de um bloqueio ou interrupção dos canais normais de dissipação do calor. As reações nor­mais do corpo a uma temperatura mais elevada incluíam o aumento de suor de modo que, durante as doenças que resultavam em febre, ele administrava diaforéticos fortes como a pimenta para fortalecer as reações normais do próprio corpo. Como era de es­perar, Thomson foi menosprezado pelos médicos contemporâneos como simples char­latão; no entanto, não tinham como ignorar o fato de os pacientes preferirem sua abor­dagem ao tratamento deles, o que levou a uma tendência oculta de interesse pela fitoterapia por parte dos principais médicos ortodoxos. A medicina tradicional fitoterápi­ca, praticada pela população indígena local, estava sendo investigada de forma exten­sa, e alguns médicos começaram a se interessar pelas plantas medicinais usadas.

O dr. Wooster Beach (1794-1868) estava ansioso por reestruturar a prática da me­dicina da corrente dominante, mas não pelo desenvolvimento da abordagem simplis­ta de Thomson. Começou a introduzir a “medicina botânica” em seu próprio consul­tório, o que o tornou muito impopular entre os médicos da corrente dominante. Isso, contudo, não o impediu de fundar a “Reformed Medical Academy”, cujos cursos in­cluíam o uso de plantas medicinais locais. Sua tentativa de combinar uma abordagem médica e científica com sólidos conhecimentos de botânica levou os membros de seu movimento a serem batizados de “os ecléticos”. A marca registrada dessa medicina era que todo tratamento se destinava a “atuar em harmonia com as leis fisiológicas”.

A abordagem de Thomson, ainda atacada, foi descrita por John Buchanan como um veneno para a sociedade”. Foi levada para a Inglaterra por Albert Isaiah Coffin em 1838; após um início infeliz em Londres, ele mudou-se para o norte da Inglaterra, on­de a fitoterapia era mais popular. Organizou grupos chamados “Amigos das Socieda­des Botânico-Médicas” e distribuía o Botanic Guide to Health [Guia Botânico de Saúde], que oferecia plantas medicinais que ele tinha importado dos Estados Unidos, as­sim como espécies locais. Mais uma vez, a popularidade da fitoterapia estava relacio­nada à estrutura de classe da época; os que não podiam dar-se ao luxo de pagar os ho­norários dos médicos ortodoxos procuravam Coffin e outros médicos da mesma linha, e achavam a medicina fitoterápica muito eficiente. Desse modo, durante certo tempo, sua sobrevivência esteve garantida.

O dr. Beach saiu dos Estados Unidos para promover a medicina eclética na Ingla­terra e condenou o sistema de Coffin da mesma forma que condenara o de Thomson. Conseguiu convencer um colega de Coffin, Skelton, de que seu sistema era superior. Por causa disso, Skelton passou a querer ser considerado um dos ecléticos — a nova mo­da da medicina botânica na Inglaterra. Com o passar do tempo, isso trouxe resultados positivos para a fitoterapia, pois Skelton conseguiu combinar a abordagem ortodoxa mais científica com a “medicina botânica”. Ambas as linhas começaram a se beneficiar com os avanços modernos da farmácia, da química etc. Essa abordagem científica te­ria sido logo condenada tanto por Thomson quanto por Coffin.

Após a morte de Thomson, em 1841, Alan Curtis fundou o Instituto Fisiomédico nos Estados Unidos, mas sua prática de usar várias plantas medicinais diferentes em grandes doses acabou sendo desaprovada. Seguiu-se uma época de grandes mudanças e reformas; certa vez, os ecléticos fizeram experiências com princípios ativos isolados (isto é, substâncias puras, não compostas) e foram criticados. Durante a era vitoriana, a medicina ortodoxa reduziu bastante o uso de sangrias, embora várias drogas tóxicas ainda fossem populares.

Agora as sanguessugas eram os agentes prediletos para “limpar o sangue”. Na década de 1890, a “medicina botânica” estava passando por uma revira­lização, e as pessoas usavam em seu dia-a-dia os remédios de plantas medicinais, práti­ca ilustrada pelo fato de os preparados à base dessas plantas medicinais e as drogas or­todoxas aparecerem juntos nas edições da British Pharmacopoeia desse período. Na Inglaterra, esse ainda não era o caso, mas os ecléticos abandonaram aos pou­cos o uso de substâncias extraídas de plantas, e a Nation Association ofMedical Herba­Iists [Associação Nacional de Médicos Herboristas], fundada em 1864, continuava lu­tando por uma aceitação maior da fitoterapia.

Um dos principais motivos da sobrevivência de sistemas médicos “alternativos” co­mo a homeopatia e a f7itoterapia como opção terapêutica é que, durante a era vitoria-na, a principal ênfase foi no financiamento privado para sustentar institutos médicos, como o Pasteur Institute (fundado em 1888) e o Robert Koch Institute (fundado em 1889). Havia muita rivalidade, como indica a proximidade das datas de fundação, e o Lister Institute da Inglaterra seguiu-se em 1891. Todos datam de um período poste­rior ao surgimento da teoria dos germes, com suas promessas de proteção contra varias doenças por meio da vacina.

Como não havia um sistema financiado pelo Estado, os pobres pagavam seus próprios planos de saúde ou os serviços dos médicos locais “alter­nativos”. Sua abordagem passou a ser chamada de “medicina da periferia” pelos que agora contavam principalmente com substâncias sintéticas para restaurar a saúde, em lugar dos métodos que visavam promover a capacidade de cura natural do corpo. Es­sa capacidade foi descrita originalmente por Hipócrates como vis medicatrix naturae (o poder de cura da natureza). Esse processo equiparou a alopatia à administração de um agente químico que restauraria o equilíbrio da saúde ao atuar diretamente contra os agentes causadores da doença.

Em alguns casos, os médicos da corrente dominante continuavam impotentes. Eles não conseguiram, por exemplo, encontrar um agente efetivo contra a tuberculose, uma das principais causas de morte na segunda metade do século XIX e no início do século XX. Nessas circunstâncias, os médicos alopatas fi­cavam muito felizes de recorrer à recomendação de que os pacientes deviam passar al­gum tempo no exterior, em climas mais favoráveis e, desse modo, a clientela mais rica era mandada ao sul da França, aos Alpes suíços ou ao Egito.

Até a descoberta da es­treptomicina por Selman Waksman, em 1940, não havia outro tratamento real, em-bota a melhoria da higiene pública e pessoal tenha contribuído bastante para reduzir a mortalidade. Houve o ressurgimento do interesse pela fitoterapia por volta da Primeira Guerra Mundial, quando os suprimentos de plantas medicinais do exterior reduziram-­se e foram substituídos por plantas medicinais cultivadas na Inglaterra. A Society of Herbalists, fundada por Hilda Leyel em 1927, passou a publicar A Modern Herbal em 1931. Entre as guerras, a fitoterapia foi muito popular entre a população em geral, e vá­rias empresas especializadas em encomendas por reembolso postal ofereciam suprimen­to de remédios fitoterápicos. A empresa Heath & Heather, de St. Albans, era típica. Seu livrinho ilustrado de 1937 descreve produtos que se propunham a tratar de doenças como prisão de ventre, gripe, hemorróidas etc., além de vender plantas medicinais não misturadas e condimentos.

Na guerra de 1939-45, a fitoterapia floresceu. Os medicamentos essenciais estavam em falta porque as importações do continente não eram mais possíveis, e a solução foi voltar à situação anterior à guerra de 1914-18, quando muitas plantas medicinais nati­vas da própria Inglaterra eram colhidas em estado natural ou cultivadas.

Os Jardins Bo­tânicos Reais de Kew deviam tornar-se o centro das operações; ali, uma equipe organi­zou planos de cultivo das espécies medicinais mais importantes e determinou que espé­cies poderiam ser colhidas no estado silvestre. Também chegou a relacionar um conjun­to de plantas medicinais a serem empregadas com a ajuda da National Federation of Women’s Institutes (NFWI) [Federação Nacional de Institutos de Mulheres]; os Boy Scouts [Escoteiros] editaram um livrinho para ajudar na identificação de várias espécies. Uma série especial de maços de cigarro produzida pela London Cigarette Card Com­pany Limited também ofereceu ilustrações para ajudar na identificação. Em 1941, o Ministério da Saúde criou o Vegetable Drugs Committee (VDC) [Comitê de Drogas Vegetais], cujo obj etivo principal era coletar espécies com as quais se produziam medi­camentos essenciais.

O trabalho da NFWI e dos Boy Scouts expandiu-se bastante, e ou­tras associações, como a Women’s Voluntary Services for Civil Defence, envolveram-se. Entre os membros do VDC encontravam-se representantes do Ministério da Agricul­tura (MAF), The Pharmaceutical Societ» Wholesale Drug Trade Association [Associa­ção Comercial de Venda de Remédios por Atacado] e Jardins Botânicos de Kew. Acon­selhavam sobre coleta, armazenamento e distribuição, o que acabou sendo publicado por Brome e Schimmer, um importador de drogas vegetais e especiarias. Documentos mostram que havia demanda por quantidades muito grandes de algumas espécies, co­mo 250 toneladas de raízes de Taraxacum officina/e (dente-de-leão). Logo ficou eviden­te que, embora o projeto tenha começado incentivando a coleta de plantas silvestres, es­ses suprimentos eram insuficientes para atender à demanda.

O VDC recomendou que, no inicio, o cultivo devia concentrar-se em cinco espécies: Digitalis purpurea (dedalei­ra), Atropa belladonna (beladona), Aconitum napellus (acônito), Datura stramonium (es­tramônio) e Hyoscyannus niger (meimendro). A raiz do acônito era usada para tratar dos nervos e de dores nas articulações, enquanto drogas sedativas e antiespasmódicas eram derivadas do estramônio, da beladona e do meimendro. O maior problema encontra­do na produção de grandes quantidades de plantas medicinais parece ter sido o impor­tante estágio de secagem, uma vez que, se a planta não for seca da maneira correta, con­terá uma quantidade consideravelmente menor de princípios ativos. Relatos mostram que o Tesouro liberou várias subvenções para ajudar a resolver esse problema. Embora as plantas medicinais produzidas no país agora estivessem sendo cultivadas de forma in­tensiva, ainda era necessário importar as espécies não adaptadas ao clima e aos fatores do solo, ou as que continham menos constituintes farmacologicamente ativos em com­paração com plantas cultivadas em seus climas nativos. Várias espécies estavam sendo importadas da tndia, e havia queixas constantes em relação à má qualidade e adultera­ção.

O diretor-executivo de Kew, sir Geoffrey Evans, observou que: “Nossas investiga­ções mostraram com uma freqüência grande demais que substitutos e adulterações da planta verdadeira estavam entrando no país, com o conseqüente desperdício de traba­lho e do espaço de armazenamento nos navios”. Sugeriu que os botânicos sediados em universidades indianas checassem o material medicinal destinado a Kew. O problema da adulteração e da substituição foi constante em toda a história da fitoterapia. Resolvi­do esse problema, as importações de estramônio e meimendro do exterior foram sufi­cientes para permitir à Inglaterra concentrar-se no cultivo da dedaleira e da beladona.

Em 1942, o VDC foi substituído pelo Ministério de Suprimentos, que trabalhava em íntima associação com o Medical Research Council (MRC) [Conselho de Pesquisa Médica]. Isso permitiu que as plantas medicinais fossem cultivadas de modo a satisfa­zer melhor as necessidades terapêuticas reais, tais como identificadas pelo MRC. Foi pu­blicado um Formulário Nacional de Guerra, que aconselhava os médicos sobre as dro­gas à venda e que alternativas usar para as que estavam em falta.

A British Pharmaco­poeia e o British Pharmaceutical Coclex foram revisados de modo a oferecer detalhes das restrições sobre as drogas essenciais com um suprimento particularmente limitado. A coleta local de plantas medicinais pela população não foi esquecida; o novo Ministério de Suprimentos produziu uma série de livrinhos intitulados The Herb Collectors’ BuIle­tin, que dava detalhes sobre coleta, secagem e remessa (Ministério de Suprimentos, 1942). O projeto correu muito bem e cerca de 250 galpões de secagem estavam em ati­vidade em todo o país. Entre 1941 e 1945, foi coletada uma quantidade impressionan­te de material, que incluía 1.524 toneladas de frutos de Aesculus hipocastanum (casta­nha-da-índia), 147 toneladas de folhas de Urtica dioica (urtiga) e 65 toneladas de bagas de Crataegus oxyacantha (crataego) (Hastings, 1996).

O total de todas as espécies mon­tava a 4.636 toneladas, no valor de 121.250 libras esterlinas. Em 1945, o Ministério da Saúde estava desenvolvendo planos para o novo National Health Service quando hou­ve uma discussão ativa sobre a política fritura em relação ao cultivo de plantas para uso medicinal. Ë irônico que 1941, o ano que assistiu a um ressurgimento do interesse pe­lo cultivo de plantas medicinais foi também o ano em que a fitoterapia sofreu um gran­de golpe na Inglaterra: o Decreto sobre Farmácia e Remédios tornou-a ilegal. Mesmo assim, a National Association sobreviveu todo esse tempo para se tornar, em 1943, o National Institute of Medical Herbalists. Em 1964, uma equipe de fitoterapeutas im­portantes juntou-se para lutar contra o Decreto de 1941.

Como conseqüência, Fred Fletcher-Hyde, também membro da recém-fundada British Herbal Medicine Associa­tion, começou a desenvolver a British Herbal Pharmacopoeia. Essa era uma condição es­sencial para reverter o Decreto de 1941. Compreendia uma série de monografias sobre todas as plantas medicinais prescritas pelos médicos fitoterapeutas e ainda é um texto fundamental para os clínicos de nossos dias. O Decreto sobre Medicamentos de 1968 deu aos fitoterapeutas uma nova liberdade, e o treinamento profissional tem-se expan­dido e desenvolvido desde então.

texto retirado do Portal São Francisco

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